Mostrando postagens com marcador Na rua. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Na rua. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

A vista por fora...

É triste de andar pessoalmente na rua onde já vivi um dia



Ex-vizinha
Ex-vizinhança

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Conversando com o papel pra tentar dormir melhor

O aguardar conforma-me.

Existe uma impaciência que domina o meu corpo, e a abstinência é um nome formal para explicar a sensação de não poder ir lá no meio de tudo, fazer algo por eles.

Tirar aquela água toda com as mãos talvez, salvar suas coisas, desafogar pessoas, ajudá-los a não sentir fome. Que faço?

Eu sou eles, eles são eu, parte minha.

Mas aí penso que poderia ser a estar lá no lugar deles. Aí sim penso que o melhor é esperarmos aqui quietos no nosso canto isolado.

Aqui na praia de Cabeçudas pouco foi atingido. A areia da praia sim, está destruída pela revanche do mar. Junto com árvores inteiras e sujeiras da própria natureza, encontram-se milhares e milhares de garrafas de plástico pet.

Sim, a Terra quer dizer que está cansada. Quem enxerga a mensagem? Mas este é outro patamar a ser discutido.

Precisamos pensar naquelas pessoas. O desgosto e desespero desenham sutilmente seus rostos. Esse retrato não sai mais da minha cabeça.

Nós aqui, eu e meu bebê, minha irmã, sua filha, esposo e a família dele; estamos protegidos e confortáveis. Mas andando por aí, é fácil deparar-se com pessoas um pouco perdidas, um pouco encontradas, talvez ainda não saibam para onde caminham ou o quê suas crianças vão comer : cada membro da família caminhando com uma sacolinha de supermercado na mão. O resto? Ficou para trás. Mais duro do que isso deve ser a perda de um ente querido.

Apesar de tudo, também estou meio perdida. Tinha compromissos com pessoas daqui. Mas não consigo parar de pensar em como devem estar, pessoas queridas e de bem. Quase todos os telefones não estão funcionando bem.

Mas e eu? O que é que eu posso fazer?

Tirar fotografias não me parece muito digno, a situação não é muito atrativa. Aliás, o jornal já se encarrega de retratar a calamidade, apesar de não conseguir alcançar uma intimidade focando um rosto judiado de um cidadão local.

À mim e minha irmã, nos tocou sair pela vizinhança pedindo alimentos, cobertores. Então, todos ajudando, e nós estamos juntando pouco a pouco e levando lá onde esperam muito.

Muito bonitinho, meu Alezinho pendurado no sling, sempre comigo, e juntos estamos vivendo isso tudo.

Estar vivo e à disposição é valioso.

E assim termino meu relato. Escrevendo me sinto melhor. Boa noite.

(25/11/2008, por volta das 23:00 horas)

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Na rua, Moçambique, endovirus e mãos cansadas


Este é nosso primeiro relato na vida real, a preto-no-branco, aquela que encaramos de frente. E hoje é um dia daqueles em que saímos contentes de casa, com sensação de esperança, inspirando cada fragmento de ar profundamente e sorrindo, como se tivéssemos de aproveitar o mundo passando por nós a cada passo.
Agora temos novos bons amigos, filho? Na verdade, são amigas. Débora e suas duas filhas, vizinhas da casa da rua de trás. Elas também tem brinquedinhos no vitrô do banheiro. Com muita simpatia, boa vontade e desejo de compartilhar suas vidas, as três saíram para caminhar conosco.
Bem, foram comigo ao pronto socorro. Sim, PS, S.O.S, código morse :-) Eu. Mas o que me surpreende, é que na insistência da recusa por médicos convencionais, acabo por me surpreender. Porque me deparei com uma mulher super humana, que me abordou logo de cara pelo corredor do hospital :

" - Nossa! Olha como você carrega seu bebê! parece até que isso é da minha terra! Sou de Moçambique!"

Hã!!?? Nossa! De Moçambique! Não é diariamente que encontramos uma médica clínica africana! Sul da África....

E ela continuou animada...

" - Meus pais são indianos, da mesma região de onde é Gandhi. Com a guerra branca (!) de 1947, fugiram de lá e foram para Moçambique. Foi quando começou a guerra sangrenta e fugiram de Moçambique".

Nossa....

Com um sorriso suspirado, olhou meu pequeno que dormia, me desejou boa sorte e seguiu em frente. Após 20 minutos talvez, volta ela, entra no consultório e chama o próximo:

" - Alessandra!" :-)

A consulta foi satisfatória, posso classificá-la como excelente médica. Para não entrar em detalhes, porque não são sintomas interessantes de ler, estou com endovirus e que é o surto do momento.

Minhas amiguinhas me esperavam pacientemente, no meio do caminho nos despedimos e disseram para convidá-las para a próxima caminhada, que será um prazer... Puxa! :-)
Chegando na Dona Darci, Comi duas fatias de banana frita e conheci seu pai, veio sentar-se à mesa conosco para fazer seu lanche de banana frita com pão. Um homem de 81 anos, com problema sério de diabetes e pulmão cansado.
Perguntei se estava tudo bem, ele disse que "ultimamente não, sabe filha?" ... Não consigo caminhar bem, minhas pernas não deixam. Não sei se fiz bem, mas disse ao velho homem que é nessas horas que damos valor às voltas de bicicleta. A vida cansa?
Isso porque no caminho, quando conversava com minhas novas amiguinhas, falei no meu desejo de ter uma bicicleta (roubaram a minha) para adaptar um banco na frente pro meu filho, e um apoio pra Isa, que sempre andou no guidão da minha bici. Amamos juntas o cheiro de liberdade do vento. Que no momento em que estiver andando com ela e o meu Alezinho; neste momento sentirei que não preciso de mais nada na vida pra ser feliz. (...)
Ainda em tempo, de volta à cozinha com bananas fritas, houve um rápido momento onde meus olhos encontraram suas mãos e de sua filha de passagem no ar. As do homem, mãos enrugadas e lentas; E de sua filha, mãos maduras e prestativas. Minhas mãos...
Voltamos para casa eu e o bebezinho, em silêncio.
Sabe, sinto prazer em poder dar de mamar e fazê-lo dormir. Não tenho pudores para contar isso.
Boa noite!